Escolha de poucos, a Física pode ser um diferencial no mercado trabalho do futuro

Disciplina se consolida como base de profissionais que hoje atuam em times de dados, inteligência artificial e análise preditiva

Embora o Brasil tenha alcançado o recorde de 10 milhões de estudantes no ensino superior, conforme o Censo da Educação Superior 2024, os cursos de Física continuam fora da preferência da maioria. Estimativas do próprio censo indicam que menos de 1% dos ingressantes optam pela área.

Em contrapartida, o Future of Jobs Report 2023, do Fórum Econômico Mundial, aponta que as carreiras com maior potencial de crescimento até 2027 estão ligadas a dados, inteligência artificial, segurança cibernética e automação — campos nos quais, segundo especialistas, físicos têm papel estratégico.

Para Fernanda Guglielmi, gerente de Recursos Humanos da Serasa Experian, esses profissionais estão cada vez mais inseridos no centro da transformação digital. “Ainda existe a ideia de que a Física forma apenas professores, mas hoje esses profissionais atuam em modelagem de algoritmos, ciência de dados, segurança digital e previsão de riscos. A formação em Física desenvolve a capacidade de lidar com incertezas, algo muito valorizado pelo mercado atual”, afirma.

A própria Serasa Experian tem ampliado a contratação de físicos para atuar em áreas como machine learning, análise de fraudes e personalização de campanhas. Um exemplo é o físico Leonardo Valadão, analista de Modelos Estatísticos da empresa, que aplica raciocínio científico na análise de dados de milhões de consumidores. “A Física me ensinou a formular corretamente o problema antes de buscar soluções. Isso é fundamental em ciência de dados”, diz.

Ao concluir o ensino médio, Leonardo hesitou entre Economia e Física. Leitor de autores como Stephen Hawking e John Maynard Keynes, decidiu-se pela Física ao perceber seu potencial para compreender fenômenos de forma estrutural. Durante a graduação na Universidade de São Paulo (USP), aproximou-se da programação e da inteligência artificial, direcionando seu interesse para aplicações práticas de algoritmos e análise de dados.

Modelos estatísticos

O caminho o levou ao mestrado em Matemática Aplicada, com foco em machine learning, também na USP. Atualmente, na área de marketing analítico da Serasa Experian, ele desenvolve modelos estatísticos voltados à personalização de campanhas, identificação de padrões e previsão de comportamento do consumidor. Segundo o profissional, a base em Física é essencial para estruturar o raciocínio que sustenta esses modelos. Seu trabalho já rendeu reconhecimentos como o prêmio ABEMD 2024 e destaque no Experian Global Hackathon.

“Em um dos projetos, elevamos a taxa de conversão em 86% e multiplicamos as vendas por 2,4. Resultados assim só aparecem quando o problema é bem definido desde o início — algo que aprendi na Física”, relata.

Apesar da baixa procura no ensino superior, o interesse pela área começa ainda na educação básica. Dados da Sociedade Brasileira de Física (SBF) mostram que mais de 250 mil estudantes do ensino fundamental e médio participam anualmente da Olimpíada Brasileira de Física, uma das maiores competições científicas do país, realizada em parceria com o Ministério da Ciência e o CNPq.

Para Fernanda Guglielmi, incentivar esses talentos passa por evidenciar que competências típicas da Física — como raciocínio lógico e resolução de problemas complexos — são cada vez mais requisitadas por empresas orientadas por dados.

A quem considera seguir essa trajetória, Leonardo deixa um conselho: “Não é preciso saber exatamente onde você vai aplicar o conhecimento. A Física estrutura o pensamento, e pensar bem é o que diferencia um profissional em qualquer área.”