Avanço da IA ameaça empregos qualificados e faz bolsas entrarem em crise

A avaliação é que as novas tecnologias passam a atingir diretamente os chamados empregos de colarinho branco

Um relatório da Citrini Research aponta que o avanço da automação e da inteligência artificial pode afetar profissões altamente qualificadas, como economistas, engenheiros, jornalistas e executivos — incluindo cargos de liderança, como CEOs. A repercussão foi imediata nos mercados: ações de grandes bancos dos Estados Unidos recuaram, assim como o Índice Financeiro (IFNC) do Brasil, refletindo receios de queda futura no consumo e na oferta de crédito.

Intitulado “Crise Global da Inteligência 2028”, o estudo se define como um exercício prospectivo sobre a história financeira projetada para o futuro. A tese central é que a renda gerada por profissionais especializados — tradicionalmente responsáveis por grande parte do consumo — pode sofrer forte impacto com a popularização da IA.

“A inteligência daquilo que sempre soubemos fazer sempre foi algo escasso”, afirma o documento. Para Vitor Souza, analista da Genial Investimentos, áreas como economia, direito, jornalismo e odontologia já enfrentam riscos concretos. “Com as inteligências artificiais, a inteligência passa a ser abundante e a um custo marginal cada vez menor”, observa.

A avaliação é que as novas tecnologias passam a atingir diretamente os chamados empregos de colarinho branco. Dias antes da divulgação do relatório, Sam Altman, CEO da OpenAI, afirmou durante o AI Impact Summit, em Nova Déli, que nem mesmo o cargo de CEO está imune aos efeitos da IA.

Segundo a consultoria, o movimento já pode ser observado na economia americana. Trabalhadores de colarinho branco representam cerca de 50% dos empregos e 75% do consumo discricionário — especialmente em setores de bens duráveis, fortemente dependentes de crédito. O temor de enfraquecimento dessa base de consumo pressionou o setor financeiro nas bolsas dos EUA e também contaminou o mercado brasileiro.

No fechamento de 24 de fevereiro, os principais índices registraram queda:

Nasdaq Composite: -1,13%
Dow Jones Industrial Average: -1,66%
S&P 500: -1,04%

Entre os bancos, as ações da Citigroup caíram 4,53%; Morgan Stanley, 4,91%; Bank of America, 3,75%; e JPMorgan Chase, 4,22%. No Brasil, o IFNC recuou 2,06%.

Souza explica que o impacto pode ocorrer em duas etapas: inicialmente, empresas se tornam mais eficientes e elevam seus lucros; posteriormente, a redução de renda e emprego entre profissionais qualificados compromete a demanda, afetando resultados corporativos e pressionando o mercado financeiro.

Economistas também vêm alertando para um possível descompasso entre o crescimento do PIB e indicadores como renda e emprego nos Estados Unidos. O avanço econômico estaria cada vez mais concentrado no setor de tecnologia, intensivo em capital, mas com baixa absorção de mão de obra.

O relatório menciona ainda sinais concretos desse processo, como o aumento da inadimplência em financiamentos imobiliários em regiões com forte presença de profissionais qualificados — um indício de que a substituição de empregos especializados pode já estar pressionando a renda em grandes centros econômicos.